Quinta, 15 de janeiro de 2026
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Artigo de Opinião / 10/12/2025
Autor

Raul Fortes

Prêmio Multishow de Música Brasileira 2025: a força de um país que canta sua história

Em um país onde a música é linguagem cotidiana, resistência afetiva e gesto político, o Prêmio Multishow de Música Brasileira ocupa um lugar singular no calendário cultural. Ano após ano, ele não apenas celebra artistas, obras e movimentos, mas também revela como o Brasil se percebe, se ouve e se reinventa. Em 2025, mais do que reconhecer talentos, o prêmio reafirma sua vocação de espelho e bússola de uma cena que pulsa em constante transformação, movida sempre por essa música que mexe com o Brasil e que atravessa gerações. Nesta edição, um gesto simbólico reforçou ainda mais essa memória coletiva: Gilberto Gil foi o grande homenageado da noite, lembrando ao país a força de uma obra que atravessa tempos, fronteiras e afetos.

Desde a reformulação dos últimos anos, com a criação da Academia Prêmio Multishow e a ampliação do diálogo com profissionais de todo o país, a premiação conseguiu aproximar narrativas regionais, linguagens híbridas e estéticas que antes habitavam margens. Hoje, essa escuta é ainda mais ampla e faço parte dela. Estou na Academia como jurado do Prêmio Multishow pelo terceiro ano consecutivo, representando o estado de Mato Grosso, território de pulsações próprias, onde ritmos, identidades e tradições ajudam a compor o mosaico da música brasileira contemporânea.

A premiação deixou de ser apenas uma vitrine televisiva de grandes nomes e passou a ser um espaço de disputa simbólica onde convivem tradição, experimentação e novos protagonismos. O que se vê é um país plural que busca novos enquadramentos para sua própria identidade musical. O rap segue expandindo horizontes, atravessando fronteiras sonoras e se consolidando como uma das vozes mais influentes da década. O pop brasileiro ganha camadas, intensidades e ousadias estéticas, enquanto a música regional, em toda a sua amplitude, da Amazônia ao Pantanal, do Cariri ao Recôncavo, do Pampa ao Sertão, ressurge com força, incorporando inovação sem perder suas raízes. A MPB, tão múltipla quanto a própria sigla permite, revela novas gerações que se equilibram entre a memória dos grandes mestres e a urgência de recontar o país.

Em meio a esse cenário, o Prêmio Multishow 2025 reafirma sua importância ao reconhecer que a música não é apenas entretenimento, mas um campo de criação e disputa que acompanha as tensões do nosso tempo. As categorias ampliadas, a curadoria descentralizada, a escuta atenta da academia e a participação ativa do público reforçam a ideia de que a música brasileira não cabe em fronteiras rígidas. Ela se espalha, escorre, se encontra e se transforma.

Mais do que o glamour da noite de gala, o que o prêmio destaca é a vitalidade do agora. Um país que canta para existir. Um país que faz da canção a sua narrativa mais profunda. Um país que encontra na arte uma forma de permanecer diante das incertezas. Celebrar o Prêmio Multishow é celebrar essa capacidade sempre renovada que a música brasileira tem de surpreender, emocionar e apontar caminhos. E ao homenagear Gilberto Gil, a premiação também celebra a própria história recente do Brasil, reconhecendo uma obra que ajudou a moldar maneiras de sentir, pensar, lutar e sonhar.

No entanto, fica uma pergunta que merece ecoar, principalmente entre nós que construímos e vivemos a cultura de Mato Grosso. E se consumíssemos mais a música feita aqui? E se fortalecêssemos nossos artistas, nossas cenas, nossos palcos, para que mais representantes do estado, novos nomes, novas vozes e novas estéticas chegassem às grandes premiações nacionais?

Do rasqueado ao lambadão, do sertanejo ao pop rock, da nova MPB que nasce com a cara do Cerrado às experimentações que surgem nas periferias e nos bairros criativos, a música produzida em Mato Grosso tem identidade, vigor e caminho próprio. O que falta, talvez, seja ampliarmos nossa escuta.

O Prêmio Multishow mostra que o Brasil está atento à diversidade. Resta a provocação: estamos atentos ao que nasce no nosso próprio território? Se quisermos ver Mato Grosso ocupando ainda mais espaços na música brasileira, a primeira transformação precisa começar aqui, nos nossos ouvidos, nos nossos hábitos, na nossa escolha diária de valorizar quem canta a nossa própria paisagem cultural.

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