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RepórterMT
Escavação no Centro Histórico de Cuiabá encontra mais de 2 mil itens que contam o cotidiano nos séculos XVIII e XIX
Uma pesquisa científica desenvolvida no subsolo da área tombada de Cuiabá está trazendo à tona detalhes inéditos sobre a formação da capital.
Mais de duas mil peças, entre fragmentos de louças finas, cerâmicas artesanais, metais e tecidos, foram retiradas de áreas residenciais antigas.
O trabalho integra o projeto “Alma Cuiabá”, coordenado pelo Instituto de Geografia, História e Documentação (IGHD) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Diferente dos registros oficiais que priorizam figuras políticas e a elite da época, a investigação arqueológica foca nos quintais de casarões históricos, como a antiga sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), localizada na Rua Sete de Setembro.
Conforme o historiador Eduardo Daflon, esses espaços externos eram o centro das atividades domésticas e de descarte, funcionando como arquivos naturais da rotina de grupos que não aparecem nos livros de história, como escravizados e trabalhadores comuns.
As escavações revelaram uma clara divisão social marcada pela geografia da cidade. De um lado do antigo Córrego da Prainha, foram encontrados vestígios de artigos de luxo, como porcelanas chinesas e exemplares portugueses.
Do outro, na região da Igreja do Rosário e São Benedito, área historicamente ligada a negros libertos, surgiram cerâmicas locais com traços de técnicas indígenas e africanas.
Para os pesquisadores, os objetos humanizam o passado, permitindo que a população compreenda o Centro Histórico não apenas como arquitetura, mas como um território de memórias e afetos.